domingo, 6 de dezembro de 2009

Um dia com o cão

Era uma quinta-feira, assim como várias outras quintas-feiras. O dia começou normal. Acordei às 06:00, quer dizer, Totó e Tatá me acordaram. Eles sempre me acordavam neste horário, pedindo por um pouco de ração e cafuné. Mas este dia realmente foi diferente. Em torno de 10:00 da manhã, recebo a notícia que na próxima segunda-feira teria que me apresentar em Anápolis, 50 km de Goiás. Isto pode ser normal, principalmente para uma engenheira civil que escolheu como opção de vida o “trecho”. Mas uma engenheira civil “trecheira” principiante não era tão fácil sair do norte de Minas com uma bagagem pesada: dois vira-latas. Eles não eram tão pesados, ao todo menos de cinco quilos, mas não foi fácil conseguir uma empresa de transporte que aceitasse carregá-los. Resumindo, após muitas ligações nos 0800 e 0300 das empresas de transporte consegui uma linha de ônibus clandestino até Belo Horizonte, com eles, pagando a passagem eles levam tudo (não subestimem o uso da palavra tudo).
Entrei no ônibus. No começo tudo foi lindo: “Nossa, que gracinha, eles são tão lindos e quietinhos!”. Eles realmente são lindos e quietinhos, principalmente se meu pé estiver na caixa de papelão com eles e durante o efeito do “dramim“ . (Tentei comprar aquelas caixas para o transporte de animal, mas em uma cidade que não se vende alface, encontrar um objeto destes é impossível.) De repente, Totó dá sinais que está acordado: Totó ejetou massa sobre a Táta. O resultado foi um cheiro imaginável no ônibus. Totó conseguiu deixar o ônibus todo perfumado.
Poucos minutos depois, chega o cobrador, um gordo mal-humorado gritando: “Tira estes cachorros daqui! Cadê o cartão de Vacinas? Eles deveriam estar em caixa apropriada e parcialmente sedados.” O cobrador tinha razão, a lei é esta, mas se o ônibus é clandestino, as leis não tem a mesma validade, este foi meu argumento. Retruquei que ele deveria ter averiguado isto quando eu entrei no ônibus e não no meio da estrada. Aceitei a exigência do cobrador e levei meus pobres e indefesos pequenos-cães para o maleiro do ônibus. O cobrador não satisfeito continuou a me xingar. Eu sei fazer qualquer coisa, menos ficar quieta, e retruquei: “Aqui ninguém é santo! Todo mundo está ilegal, o ônibus é ilegal, seu serviço é ilegal!” Apontei para o motorista, quando entrei no onibus e disse: “O serviço dele é ilegal!”. Não sendo o suficiente, continuei: “Não vem querer dar uma de marido traído, que você não é!”.
Após minha crise de mãe adotiva de dois vira-latas, fiquei com tanto medo do cobrador vingar de mim que todas as vezes que o ônibus parava eu descia para averiguar se o cobrador não estava judiando de Tatá e Totó. Detalhe: o ônibus parava a cada quilometro para fazer entrega de cigarro do Paraguai. Eu descia junto para verificar se eles não deixariam Totó e Tatá de brinde.
Na primeira parada, Totó e Tatá estavam com a carinha mais feliz do mundo, conseguiram pular da caixa de papelão que estava sem tampa e aventurar pelas malas, e dormir no meio de um colchão de alguém. Fiz minha gambiarra e consegui impedir que Totó e Tatá saíssem da caixa, mas meu coração estava apertado, assim como eles lá dentro. Nas outras paradas só analisava se estavam realmente presos, respirando e salvos do gordo mal-humorado. Resumindo a historia, não dormi a noite inteira, o ônibus saia às 20:00 do norte de Minas e chegava às 6:00 em Belo Horizonte. Consegui chegar em BH, mas minha difícil trajetória não acabou.
Meus pais, após muita chantagem emocional, chegariam em BH somente às 09:00. Eles resolveram me buscar e carregar no carro Totó e Tatá, mas isto não foi fácil, precisei aceitar a todas as condições deles. Uma delas, meu pai quis comer naquela padaria, com aquele pão-de-queijo que não tem banheiro. O pequeno detalhe: consegui ir ao banheiro ao meio-dia na estrada. Enquanto esperava pelo meus pais na praça da Liberdade, a Disney para Totó e Tatá, terra, gente e comida; para mim, sem banheiro, muita bagagem, sem comida e com a mão suja. Consegui ir para minha cidade. Na estrada não dei comida para Totó e Tatá. E se meu pai tivesse uma crise de gordo cobrador de ônibus? Gordo ele sem dúvidas já é; cobrador de ônibus mal humorado, não. Ganhei uma tremenda cólica, resultante da ejeção líquida e sólida que não fiz na manhã de sexta. Mas o resultado foi muito legal: meu primo de sete anos adotou Totó e Tatá e eu acordei no domingo sem ninguém para dar ração. Foi triste para mim, para os dois protagonistas desta história, não. Ganharam três tias, um pai, um tanto de visita e um tanto de flor para morder. Agora, o próximo texto, será das lembranças de minha tia e seu canteiro de copo-de-leite... Totó e Tatá são impossíveis. Os colegas de ônibus clandestino que digam...

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