sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Vaidade Feminina

É claro que eu queria ser bela como Deborah Seco e sexy como a Juliana Paes. Nenhuma mulher é louca de dizer o contrário. Do mesmo modo, ninguém dirá que não gostaria de ter a fortuna do Eike Batista. (Fico imaginando o nível dos respectivos pares). Mas e eu, assim como a maioria das mulheres, que não tenho o padrão “Deborah Paes” de qualidade? Será que por conta dos quilos a mais serei sujeita a eterna infelicidade e nunca terei alguém para amar? Será que por causa dos traços mais fortes da imperfeição nunca sairei de casa e atrairei os olhares e os desejos do sexo oposto? Minha resposta é não e, diga-se de passagem, não tenho a menor dúvida disto!

Alguns anos atrás a mulher tinha grande dificuldade em ser “algo a mais” que mãe-dona-de-casa ou professora. Não estou dizendo que estas duas funções são menos importantes, na verdade, acredito que são as duas mais importantes na formação de qualquer ser humano digno. Porém, se a mulher queria algum reconhecimento extra, era preciso vencer os concursos de beleza. Enquanto isto, os homens conseguiam atingir seus objetivos pessoais sem a utilização da beleza física. Acredito ser este o motivo das mulheres serem muito mais vaidosas que os homens.

Deve ser muito gratificante ser miss, mas não é pré-requisito para ser feliz. Eu possuo uma beleza “normal” nunca conseguirei ser destaque apenas utilizando o físico. Isto não me deixa infeliz, pois tenho que a certeza que conseguirei o “algo a mais” utilizando a capacidade de pensar e ser agradável.

Mas qual é o fundamento das inúmeras preocupações com a estética? O problema é que a sociedade ainda apresenta a tradição antiga (mesmo inconsciente) que, quando a mulher quer o reconhecimento ou uma condição financeira melhor, tem que ser bela. (As belas ganham algum concurso de beleza e tem maiores chances de casar com um homem rico). Ainda acreditamos que, para ser admirada, amada, precisamos ser belas e magras, uma Barbie. Nós mulheres, vivemos uma busca irracional e incansável pela beleza, uma não aceitação das gordurinhas, das rugas, dos cabelos rebeldes, dos olhos e cabelos castanhos... Não acreditamos que nossa capacidade está além da beleza física.

Tenho a certeza que não posso mudar o mundo, apenas posso mudar o meu mundo, a minha maneira reagir com o espelho. Quando olho no espelho minhas gordurinhas elas não mais são vistas como um desvio de conduta ou um atestado de “eterna gorda infeliz”, muito pelo contrário, retratam minha conduta de ser trabalhadora da mente, de ser alguém que acredita que tem um “algo a mais” além do físico. Ao contrário de muitos, posso usar a paródia sem a menor dúvida: “Quem me conhece me compra!”.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Um dia com o cão

Era uma quinta-feira, assim como várias outras quintas-feiras. O dia começou normal. Acordei às 06:00, quer dizer, Totó e Tatá me acordaram. Eles sempre me acordavam neste horário, pedindo por um pouco de ração e cafuné. Mas este dia realmente foi diferente. Em torno de 10:00 da manhã, recebo a notícia que na próxima segunda-feira teria que me apresentar em Anápolis, 50 km de Goiás. Isto pode ser normal, principalmente para uma engenheira civil que escolheu como opção de vida o “trecho”. Mas uma engenheira civil “trecheira” principiante não era tão fácil sair do norte de Minas com uma bagagem pesada: dois vira-latas. Eles não eram tão pesados, ao todo menos de cinco quilos, mas não foi fácil conseguir uma empresa de transporte que aceitasse carregá-los. Resumindo, após muitas ligações nos 0800 e 0300 das empresas de transporte consegui uma linha de ônibus clandestino até Belo Horizonte, com eles, pagando a passagem eles levam tudo (não subestimem o uso da palavra tudo).
Entrei no ônibus. No começo tudo foi lindo: “Nossa, que gracinha, eles são tão lindos e quietinhos!”. Eles realmente são lindos e quietinhos, principalmente se meu pé estiver na caixa de papelão com eles e durante o efeito do “dramim“ . (Tentei comprar aquelas caixas para o transporte de animal, mas em uma cidade que não se vende alface, encontrar um objeto destes é impossível.) De repente, Totó dá sinais que está acordado: Totó ejetou massa sobre a Táta. O resultado foi um cheiro imaginável no ônibus. Totó conseguiu deixar o ônibus todo perfumado.
Poucos minutos depois, chega o cobrador, um gordo mal-humorado gritando: “Tira estes cachorros daqui! Cadê o cartão de Vacinas? Eles deveriam estar em caixa apropriada e parcialmente sedados.” O cobrador tinha razão, a lei é esta, mas se o ônibus é clandestino, as leis não tem a mesma validade, este foi meu argumento. Retruquei que ele deveria ter averiguado isto quando eu entrei no ônibus e não no meio da estrada. Aceitei a exigência do cobrador e levei meus pobres e indefesos pequenos-cães para o maleiro do ônibus. O cobrador não satisfeito continuou a me xingar. Eu sei fazer qualquer coisa, menos ficar quieta, e retruquei: “Aqui ninguém é santo! Todo mundo está ilegal, o ônibus é ilegal, seu serviço é ilegal!” Apontei para o motorista, quando entrei no onibus e disse: “O serviço dele é ilegal!”. Não sendo o suficiente, continuei: “Não vem querer dar uma de marido traído, que você não é!”.
Após minha crise de mãe adotiva de dois vira-latas, fiquei com tanto medo do cobrador vingar de mim que todas as vezes que o ônibus parava eu descia para averiguar se o cobrador não estava judiando de Tatá e Totó. Detalhe: o ônibus parava a cada quilometro para fazer entrega de cigarro do Paraguai. Eu descia junto para verificar se eles não deixariam Totó e Tatá de brinde.
Na primeira parada, Totó e Tatá estavam com a carinha mais feliz do mundo, conseguiram pular da caixa de papelão que estava sem tampa e aventurar pelas malas, e dormir no meio de um colchão de alguém. Fiz minha gambiarra e consegui impedir que Totó e Tatá saíssem da caixa, mas meu coração estava apertado, assim como eles lá dentro. Nas outras paradas só analisava se estavam realmente presos, respirando e salvos do gordo mal-humorado. Resumindo a historia, não dormi a noite inteira, o ônibus saia às 20:00 do norte de Minas e chegava às 6:00 em Belo Horizonte. Consegui chegar em BH, mas minha difícil trajetória não acabou.
Meus pais, após muita chantagem emocional, chegariam em BH somente às 09:00. Eles resolveram me buscar e carregar no carro Totó e Tatá, mas isto não foi fácil, precisei aceitar a todas as condições deles. Uma delas, meu pai quis comer naquela padaria, com aquele pão-de-queijo que não tem banheiro. O pequeno detalhe: consegui ir ao banheiro ao meio-dia na estrada. Enquanto esperava pelo meus pais na praça da Liberdade, a Disney para Totó e Tatá, terra, gente e comida; para mim, sem banheiro, muita bagagem, sem comida e com a mão suja. Consegui ir para minha cidade. Na estrada não dei comida para Totó e Tatá. E se meu pai tivesse uma crise de gordo cobrador de ônibus? Gordo ele sem dúvidas já é; cobrador de ônibus mal humorado, não. Ganhei uma tremenda cólica, resultante da ejeção líquida e sólida que não fiz na manhã de sexta. Mas o resultado foi muito legal: meu primo de sete anos adotou Totó e Tatá e eu acordei no domingo sem ninguém para dar ração. Foi triste para mim, para os dois protagonistas desta história, não. Ganharam três tias, um pai, um tanto de visita e um tanto de flor para morder. Agora, o próximo texto, será das lembranças de minha tia e seu canteiro de copo-de-leite... Totó e Tatá são impossíveis. Os colegas de ônibus clandestino que digam...